O Capitão Krôhôkrenhũm

A PALAVRA QUE EU QUERIA TER DITO –

no lançamento do livro de Memórias do chefe Krôhôkrenhũm, em 09/12/2011
por Leopoldina Araújo*
UFPA-SEDUC/PA


Nós estamos muito alegres hoje, não é Capitão? É uma alegria estarmos aqui e eu me lembro de quando vim, pela primeira vez, em 1974. A aldeia, com sete ou oito casas de palha, apenas a sua de alvenaria… E o exato número de 49 pessoas. Perguntando pelo nome das crianças, o senhor me disse que não tinham mais nome na língua: “É tudo kupẽ, agora.” Já não faziam as festas… A estrada tinha cortado a aldeia e de um lado estavam as casas de vocês, do outro a casa do Posto da FUNAI, onde eu fui atenciosamente alojada. Mas eu lhe falei do Seu Expedito Arnaud e expliquei que estava fazendo um curso e meu professor me disse para estudar a língua da sua comunidade. O senhor concordou de ser meu professor.

Desde 1975, vocês começaram a tomar conta da venda da castanha e em 1976 vocês fizeram, depois de longo tempo, a festa do Hàk. A notícia saiu no jornal, em Belém. E, aos poucos, e nunca sozinhos, vocês, com o senhor na frente, foram voltando a se pôr de pé, a relembrar as cantigas, as festas. Eu fui embora…

Em 1981, o senhor mandou recado, pra eu vir escrever as histórias do Pyt e Kaxêre. Encontrei outra situação: o senhor tinha mandado chamar os kỳikatêjê, da Ladeira Vermelha, para juntarem-se a vocês, no Trinta, para conseguirem fazer de novo as festas, com as duas metades rituais: Pàn e Hàk. Eles todos falavam bem a língua e o senhor sentiu que isso era importante, para a sua turma. E voltaram a jogar flecha juntos, aos pares de parceiros.

Em 1989, de novo o senhor mandou recado, dessa vez, para eu vir coordenar um Projeto de Escola de 5ª. a 8ª. Série, pois o senhor estava preocupado com a saída dos jovens, a Iracema dentre eles, que queriam continuar seus estudos e, para isso, tinham de ir até Marabá.

E fizemos o Projeto da Escola: de julho de 89 a junho de 1990 o Projeto foi discutido com os jovens candidatos a alunos e com os velhos, nas reuniões de pátio. A Escola Parkatêjê funcionou de julho de 1990 a abril de 1995. Nesse Projeto, parceria entre comunidade, a Vale do Rio Doce e a SEDUC, além da assessoria e professores kupẽ, havia professores e conselheiros da comunidade: Kruwati e Paiare, depois também Piare, Jõkorenhũm, Mĩre… E a escola se fazia em sala e em campo, integrando trabalhos, festas e brincadeiras da comunidade em sua programação, seu currículo.

O entusiasmo inicial – quase 50 alunos incritos – manteve-se, embora o número de alunos diminuísse. Sofremos três duras perdas, durante esse tempo: seu filho Jõkũmti, o Nego, Kruwati, marido da Iracema e Jõkorenhũm, seu irmão. Um representante de cada grupo da comunidade, na escola – aluno, professor, conselheiro. Apenas oito alunos, se bem me lembro, concluíram a oitava série. Mas a semente estava lançada e dois anos depois a Escola foi autorizada pela SEDUC/PA, funcionando já há algum tempo com um Diretor membro da comunidade e professores kupẽ e parkatêjê..


Aquele Projeto da Escola, acompanhado pedagogicamente pela Professora Marineusa Gazzetta frutificou e produziu o primeiro livro da comunidade. O nome escolhido foii Conhecendo Nosso Povo. Inicialmente, vocês não queriam publicá-lo, parece que com medo de “entregar pro kupẽ” os segredos de seu povo, mas depois, pediram sua publicação e ela foi feita pela SEDUC/PA.

Em todo esse processo, destacava-se a sua liderança e exigência em favor do conhecimento das tradições, do uso da língua, mas também da ousadia de novos projetos, como o plantio de cacau, visando ao domínio de novas atividades e tecnologias que garantissem futura autonomia à  comunidade. A esse respeito, lembro da curiosidade e interesse da Madalena, querendo entender duas palavras: “cultura” e “futuro”. Eram realmente dois temas fundamentais das discussões daquela época e, entendo, continuam sendo hoje: cultura – a tradicional, a atual; futuro – que precisa ser construído, no presente, sem esquecer o passado.

Em 2000, o senhor gravou cantigas com o Prof. Erasmo Borges. O Instituto de Artes do Pará aprovou um Projeto meu, para publicação de uma parte delas, como o senhor desejava – “Cantos de Caçador”, já foi o segundo livro; em 2003, o Programa Raízes, do Governo do Estado publicou um livro meu sobre a Ortografia da Língua… A biblioteca parkatêjê vai crescendo. Seu livro de Memórias já é o quarto livro e eu lhe garanto que não demora muito eu termino o Dicionário parkatêjê-português, no qual venho trabalhando há bastante tempo e vai sair com mais de 2.000 palavras. Estou preparando mais coisas. To hĩ nã.

Como eu disse, no início, nós estamos muito felizes, hoje, Capitão: aquelas sete ou oito casas são agora duas aldeias (uma com dois círculos de casas), no Trinta, e outra,  no antigo Negão, que o senhor nomeou com o nome daquela antiga Rõhôkatêjê; uma aldeia kỳikatêjê, no Km 25 e uma aldeia akrãntikatêjê, no 15.  As 49 pessoas são hoje cerca de 500 – só na comunidade parkatêjê, penso que o mesmo tanto na dos kỳikatêjê e ainda os akrãntikatêjê, com número menor de pessoas. Creio que dá mais de mil pessoas, ao todo e isso é importante, mesmo se esse aumento conta também com outras etnias e uma parte de kupẽ, que aqui vieram se instalar. E, como o senhor me observou, ainda hoje: “Tem muita mulher buchuda, tá aumentando. É bonito!”

E hoje, está aparecendo o seu livro de Memórias. Uma boa parte do que o senhor quer deixar pro seu povo e, aliás, como o senhor disse e nomeou o livro, que pertence ao seu povo. Tem também o Vídeo, para deixar a sua “sombra”, pois como o senhor também disse: “Eu não quero morrer de graça.”.

Capitão, trabalhar nesse livro foi uma oportunidade única para todos os que participamos do trabalho. Como na Escola, começou com muita gente e terminou com pouquinha – as quatro “meninas” que bateram a peteca até o fim, o seu sobrinho, o seu neto. Mas mesmo quem não foi até o fim, viveu momentos de empolgação, alegria e diversão. O trabalho com o senhor, além de trazer muitas informações sobre fatos históricos e dados culturais, fazia-nos também rir um bocado, por conta do seu bom humor, emocionava, por nos dar a conhecer tantos momentos difíceis que o senhor teve de enfrentar, desde bem jovem e consolidou nossa admiração pela tenacidade com que o senhor se dedicou a salvar o seu povo – tanto fisicamente, como culturalmente.

Parabéns, Capitão e pode continuar contando comigo.

* Leopoldina Araújo –  professora, doutora e linguista,  autora do  Dicionário Parkatejê – Português, que atribui uma grafia à língua do povo Parkatejê. Fruto de mais de 40 anos de pesquisa.